Pausa para almoçar. Agora, em bom.

À MESA COM

Inês Pais, The Photo Bite

Inês Pais, 25 anos, Lisboa, mestre em Psicologia com especialização na vertente Organizacional, com experiência de dois anos na área do Recrutamento e Capital Humano e uma breve passagem por um segundo Mestrado em Gestão. Poderia ser apenas mais um perfil mas é o da responsável pelo  The Photo Bite, uma página de Instagram de #foodporn saudável que surgiu em maio de 2017, chegou aos 10.000 seguidores em setembro e não para de crescer.
 

Apesar de a história de Inês com a comida ter começado há muitos anos, nunca pensou que a alimentação saudável se pudesse transformar primeiro num hobby, depois numa paixão e finalmente numa carreira.

No 9º ano, quando todas as crianças fazem testes psicotécnicos para definir um plano de estudos futuro, Inês dispensava conselhos com uma certeza inabalável: fascinada pela mente humana, por formação de hábitos e comportamentos, queria estudar Psicologia e compreender os processos e os indivíduos, trabalhando na felicidade das pessoas.

Entrou na Faculdade, seguiu um Mestrado Integrado que a levaria para a área Organizacional - à data já começava a questionar as suas escolhas mas sempre pensou que, estando ligada ao Capital Humano e à formação de equipas, conseguiria ter um impacto positivo na vida das pessoas - e começou a trabalhar na área pouco depois. Primeiro durante um ano e meio, período durante o qual a vocação se foi esmorecendo, e depois por um período de seis meses no seu segundo emprego, para tentar ganhar certezas sobre o futuro.
 

Na Primavera de 2017, Inês já tinha percebido que não seria feliz na carreira que tinha escolhido. Como se tinha tornado modelo aos 15 anos - algo que sempre manteve como hobby - decidiu continuar a fazer alguns trabalhos paralelos e matricular-se novamente na Faculdade, desta vez em Gestão, para explorar possibilidades. No entanto, semanas antes do verão, uma feliz coincidência viria a mudar-lhe os planos; Inês, apaixonada desde sempre por fotografia, recebe de presente uma nova lente para a sua câmara e cria uma página de Instagram para partilhar as suas fotos de... comida. Porque sempre tinha gostado de comida, porque sempre tinha gostado de a fotografar, e porque como vivia sozinha fazia - e inventava - muitos pratos. O The Photo Bite nascia, assim, em maio.

Inicialmente a página de Instagram servia para partilhar boas fotos - o objetivo era a partilha de #foodporn e não de receitas. Como Inês já ponderava despedir-se tinha encontrado aqui um escape, um projecto paralelo que iniciava pouco depois de concorrer ao Mestrado em Gestão e em que poderia explorar o seu lado criativo. No entanto, semanas depois do lançamento do The Photo Bite, Vanessa Martins procurava uma parceria para receitas saudáveis no Frederica e, através de uma amiga em comum, descobriu a página de Inês. Da descoberta a um almoço foram uns dias; do almoço até Inês começar a partilhar as suas receitas no Frederica, mais umas semanas. E é aí que Inês descobre um novo caminho - com a colaboração com o Frederica chega, em semanas, aos 10.000 seguidores, e quando pensava que eventualmente o hype  iria acabar por passar, percebe que continuava a crescer, a captar o interesse de mais pessoas e a ter mais feedback da comunidade que se começava a criar.

Entretanto, e enquanto se começavam a acumular dúvidas sobre o Mestrado em Gestão, Inês ia ponderando ter formação oficial em cozinha para poder explorar a vertente profissional do prazer que tinha descoberto com o The Photo Bite. Depois de um mês e meio de aulas, cancelou a Faculdade e encontrou o que procurava no Diploma em Gastronomy, Nutrition and Food Trends  do Le Cordon Bleu, em Londres, onde foi aceite e onde ingressará durante a primavera de 2018. Até lá, dedica-se ao The Photo Bite e a preparar-se para a mudança para a capital britânica.


“Eu adoro comida a um extremo e adoro ao extremo comida saudável. (...) Não como saladas que sejam base de folhas – para mim é uma seca. Como saladas se tiverem quinoa, arroz...”

É filha de pais separados desde que se lembra. Do lado paterno, as refeições sempre incluíram muita comida processada e, como sempre comeu pouco e nunca se interessou muito por pratos principais, sempre gostou de comer coisas que ao seu paladar fossem adoçadas. "Adorava raviolis pré-preparados, pão e bolachas." Do lado materno havia uma preocupação maior com vida saudável; a mãe já frequentava, na altura, o único supermercado biológico de Lisboa, o Biocoop, e trazia coisas para experimentar. “Sempre fui uma criança que, pelo menos, conhecia os dois lados. E gostava. Gostava do tofu, do pão que era estranho com sementes e fermentação natural, da pasta de tâmaras com amêndoas em vez de um bolo...”

Aos 21 anos foi viver sozinha e essa mudança implicou passar a cozinhar. Como já estava desperta para a alimentação saudável, encarou este momento como uma oportunidade para o fazer de uma forma mais séria, mais educada.
 

“Um bom conjunto de especiarias e ervas secas nunca falta na minha cozinha – tenho umas 30. Para doces não dispenso tâmaras, cacau, batata doce e abacate.”

Deixou de consumir glúten há cerca de 3 anos. Ao inchaço abdominal de que sempre sofreu e ao mal estar intestinal que achava “normal” juntou-se um surto de eczemas – durante um ano tinha constantemente problemas na pele – que foi explicado, pela maioria dos médicos, pelo stress. Na altura já ia muitas vezes ao ginásio e conheceu um personal trainer que lhe sugeriu eliminar o glúten da alimentação para eliminar os sintomas. Seguiu o conselho durante umas semanas, deixou de ter eczemas e resolveu os seus problemas intestinais – e a partir daí não voltou atrás. Também já não consome lacticínios e foi eliminando as gorduras más, os aditivos, os açúcares refinados e os produtos processados, tudo à base de conhecimento que foi ganhando e experiências que fez com a sua própria alimentação e reacções do seu corpo. “A excepção são as batatas fritas da minha avó. Cortadas, preparadas, fritas por ela... têm um valor emocional muito grande.”

A escolha de uma alimentação plant based é mais recente mas já ocupa 80% da sua mesa e é uma resposta a preocupações de saúde e com a alimentação mas não só - o meio ambiente, a sustentabilidade, a violência associada à indústria pecuária tornaram esta escolha inevitável. Para quem tem curiosidade, sugere dois documentários: What the Health e o Food Choices. "Não são chocantes do ponto de vista gráfico mas dão informação que surpreende a maioria das pessoas."
 

“Estou a educar-me cada vez mais. Todos os dias oiço podcasts, vejo receitas para me inspirar, estou nas redes sociais, cozinho, fotrografo - aprendi a editar sozinha as minhas fotografias no Lightroom e no Photoshop... Não tenho parado. (...) Eu faço o meu trabalho e tento fazê-lo bem – só partilho a receita se achar que está mesmo boa. E as portas têm-se aberto assim.”

Gosta de adaptar receitas e dar-lhes um twist saudável mas também de criar de raiz – perceber que tem 5 ingredientes e que, dependendo de como os juntar, pode criar algo bom. Ao início inspirava-se em receitas já feitas para perceber as proporções e alguns truques da cozinha porque não tinha formação que lhe garantisse autonomia. Hoje em dia já conhece os ingredientes e como funcionam em conjunto.

Quando não tem tempo para almoçar, aproveita os legumes assados com especiarias que tem sempre no frigorífico – cravinho é um dos seus temperos preferidos – e junta-os no wok a cogumelos frescos ou espinafres. “Especiarias mudam qualquer prato e fazem com que gostes de vegetais.”  Se não tiver restos, junta numa frigideira um tomate picado e um ovo biológico com abacate e nozes por cima. 



EM DISCURSO DIRECTO.

Inspirações: "Sem dúvida a   Deliciously Ella   porque não se limitou a ter um blog onde partilha receitas. Tem espaços, tem produtos, é muito próxima dos seguidores e clientes, e é consistente, tem boa imagem, é simpática – tem o pacote todo. Em Portugal, a Teresa d' O Meu Abacate – identifico-me muito com ela e com o seu percurso, já que também abandonou a sua área de formação, no caso design, para se dedicar à alimentação."

O que descobriste agora que gostavas de ter descoberto aos 15 anos? "Os abacates – adoro e dá para tudo, seja para salgados ou doces."

Melhor receita para fazer em 5 minutos? "Mousse de cacau com abacate (abacate, banana ou tâmaras, cacau e creme de coco) ou brownie cru."

Melhor comfort food de inverno? "Papas quentes – tanto ao pequeno almoço como ao lanche. E a receita para umas boas papas quentes não é difícil: eu gosto de misturar flocos de trigo sarraceno e leite de coco de lata, e adicionar fruta, toppings e especiarias doces (canela, lúcuma)."

O que te reserva o futuro? "O curso é até dia 01 de junho; vou ficar o resto do mês em Londres e gostava de estagiar numa cozinha plant based para ganhar know how. Depois, volto para Lisboa para continuar a trabalhar. Quero desenvolver e criar mais receitas, fazer workshops, dedicar-me ao blog que vou lançar em breve... Gostava de fazer catering, embora fosse mais exigente em termos logísticos e me obrigasse a ter uma estrutura montada, e, no futuro, abrir um espaço onde pudesse servir refeições e dinamizar projectos paralelos."

O futuro da alimentação. Em bom. "Gostava que a leitura de rótulos se tornasse algo natural. Mais do que as pessoas decidirem comer bem – que é um processo longo – gostava que soubessem o que estão a comer e tomassem as suas decisões de forma consciente. Há uma falta de informação muito grande. As gerações mais novas já se preocupam mas os pais nem sempre o fazem e a menos que vivas sozinha, não consegues mudar muita coisa. E poucos são os homens que se preocupam com comer bem, que dão o primeiro passo."



É possível acompanhar o The Photo Bite no Instagram e, em breve, no blog homónimo que Inês está a preparar para lançar.

SUN&VEGS

AGORA, EM BOM

Almoçar pode ser apenas mais uma pausa obrigatória a meio do dia ou um momento de partilha, descoberta, prazer. É por isso que convidamos quem nunca para de correr para se sentar, respirar e nos contar tudo - sobre si e sobre a comida que faz bem.

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