Pausa para almoçar. Agora, em bom.

À MESA COM

Vânia Duarte

A história de Vânia Duarte é daquelas que nem sempre é fácil de contar - e por isso é que é tão importante fazê-lo. Uma história de derrotas e conquistas, desafios e superação, dias bons e dias menos bons. Uma história de momentos que é preciso não esquecer, mesmo aqueles em que foi lá abaixo, especialmente esses.

Quem é Vânia Duarte? É a mulher que escreve as linhas e entrelinhas do Lolly Taste, um blog que surgiu, como tantos outros, como escape para aborrecimento e catalisador de criatividade, até ter encontrado a sua voz no self care.

"Sou a Vânia, tenho 32 anos, sou designer digital e sou uma total morning person - adoro manhãs, acordo super bem disposta e treino logo às 7. Acordo sempre com muita energia, seja à segunda-feira seja ao sábado. Sou voluntária na UPPA há 4 anos e sou a clássica crazy cat lady - tenho 2 gatos. Sou muito apaixonada por cristais e por tudo o que é místico, do tarot à meditação, passando por tudo o que está ligado à parte espiritual, que tenho aprofundado no último ano e meio. Sou feliz!"

O Lolly Taste surgiu há 8 anos, quando estava num trabalho em que não gostava mas do qual não podia desistir, e durante muito tempo focou-se em arte, design, coisas que Vânia via e partilhava, arquivava. Chama-se Lolly Taste porque, quando o criou, estava a comer um chupa-chupa de limão - não poderia ter sido mais aleatório e despreocupado.

"Nunca foi meu objetivo ter muitos seguidores ou tornar-me conhecida - é algo que faço porque gosto. Quando não me apetecer mais, paro, algo que já fiz antes durante um ano. Escrevo porque quero partilhar, não porque quero ser mais ou menos influente."

De segunda a sexta-feira, Vânia acorda às seis da manhã, bebe um chá verde com canela - "É a primeira coisa que faço todos os dias!" -  e prepara-se para treinar durante quase duas horas. Chega à agência de publicidade onde trabalha por volta das 10h, toma o pequeno-almoço - antes de treinar e depois do chá verde já tomou um pré-treino, provavelmente um batido de banana e um café - e trabalha até às 18:30.

Quando regressa a casa, dedica-se aos seus gatos e ao meal prep. "A minha rotina não varia muito, sou muito certinha com a minha alimentação, levo sempre tudo para o trabalho."  Ao final do dia, gosta de escrever um texto no blog. No entanto, o tempo que passa frente a ecrãs depois do trabalho é cada vez menor.

"Desde o início de 2017 que lancei o desafio a mim mesma de desligar o telefone a partir das 21:30 - queixava-me que não tinha tempo para ler mas passava horas e horas nas redes sociais. Passei de não ler nada, no ano passado, para ler 24 livros num ano. À noite escrevo um post, vejo uma série, leio - mas procuro desligar-me."
 

"Gosto muito de escolher as coisas ricas nutricionalmente - já fui a louca das calorias mas felizmente já não sou..."

Quando era criança era muito magrinha - a sua alcunha na escola, até aos 10 anos, era Olívia Palito. Ao chegar à adolescência ganhou formas, apetite e... peso. Chegou a pesar 75 quilos porque comia muita fast food, mas percebeu recentemente que teve compulsões alimentares desde muito miúda. "A minha relação com a comida desde os 13, 14 anos sempre foi muito compulsiva - comia muitos doces - e a partir dos 16 anos, depois de ter sido gozada pelo tamanho das minhas ancas, comecei a tomar consciência do meu corpo, a olhar-me ao espelho e a perceber que, com 76 ou 77kg e a vestir um 46, tinha uma figura de que não gostava."

Sofreu de bulimia durante 8 anos - ao final do primeiro, a mãe apanhou-a a vomitar e começou o tratamento. “A minha mãe dizia que eu tinha uma doença, os médicos diziam-no, e eu pensava que eles só me queriam engordar. Nestas doenças, tu lutas contra ti própria.”  O processo para se livrar da doença foi longo tortuoso e, quando achou que estava curada, percebeu que a compulsão em induzir o vómito era apenas mais um resultado da forma irreal como imaginava o seu corpo.


"Deixei de vomitar oficialmente aos 24 anos mas a única coisa que mudou foi isso - a minha relação com a comida manteve-se péssima. Sempre fui muito obsessiva, sempre experimentei todas as dietas, tomei todos os suplementos. A minha forma de lidar com a frustração era comendo - comia compulsivamente e depois deprimia."

Em 2016 voltou a embarcar numa dieta desequilibrada que a levaria, uma vez mais, ao hospital. "Em 3 meses daquela dieta e treinos diários consegui um corpo que nunca tinha tido, uma barriga super seca e uma redução de massa gorda extraordinária. Mas dormia muito mal, comia sempre a mesma coisa e tinha de pesar tudo à grama. O meu pequeno-almoço era sempre claras com canela... Comecei a desenvolver um medo profundo de comer qualquer coisa sem pesar e passei a estar constantemente a tentar perceber quantas calorias existiam em cada coisa que punha na boca. Eventualmente, ao fim de algum tempo, comecei a lidar com compulsões alimentares muito graves. Vivia numa restrição tão grande que no dia livre comia de forma absurda e na segunda-feira seguinte voltava a treinar desenfreadamente para compensar. Um dia, 4 meses depois de começar a dieta, fui parar ao hospital."

Depois de crises de humor brutais, uma queda de cabelo horrorosa e dois dias de dores de cabeça insuportáveis, acordou uma manhã sem se conseguir levantar. Quando chegou ao hospital, foi-lhe diagnosticada uma anemia muito grave. E, de repente, dá por si numa cama de hospital completamente desnutrida e percebe que há 15 anos que tem uma relação muito pouco saudável com a comida – bulimias, compulsões, depressões, ataques de pânico...

“Na minha conta de Instagram criei uma personagem. Tirava fotos a posar e recebia elogios todos os dias, mas depois desligava o telefone e chorava porque achava que aquilo não correspondia à realidade, porque me achava horrível e as pessoas não viam.”  Foi no final desse período que passou no hospital que percebeu que, mais do que ter um corpo fit, precisava de paz, de não ter medo de comer, de viver. “Costumo dizer que comecei o meu processo de cura interior. Hoje gosto de comer, gosto de mim – não todos os dias, porque ninguém gosta todos os dias. Mas sinto que já não vivo para o verão, algo com que era completamente obcecada.”


“Escolho aquilo que o meu corpo me pede. Aprendi muito a ouvir os sintomas que o meu corpo me dá - tive uma nutricionista que me acompanhou e guiou mas hoje em dia como aquilo que gosto e que me faz bem, e isso é o mais importante. Procuro ter uma alimentação saudável e dentro de uma alimentação o mais equilibrada possível, mas não me privo de pizzas e gelados, por exemplo, que adoro."

"Em 2014 comecei a fazer uma reeducação alimentar e comecei a partilhar no blog um pouco mais sobre alimentação, de forma muito ligeira. Quando, em 2016, fui parar ao hospital fiz um post de desabafo, muito porque é mais fácil para mim escrever do que falar sobre os meus sentimentos, e esse post teve uma repercursão brutal - recebi imenso feedback, senti um apoio enorme, e senti que tinha encontrado a minha voz digital.

Continuei a escrever porque me fazia bem - escrevo muitas vezes para não me esquecer onde já estive. Ao escrever sobre os meus problemas com a alimentação, acabei por criar uma comunidade que se identifica com as minhas vitórias e com as minhas derrotas, e tornou-se uma forma de me manter cá em cima, à tona. O Lolly Taste acabou por se tornar um espaço de amor próprio."


 


EM DISCURSO DIRECTO

Melhor opção para almoçar em cinco minutos? "Uma salada. Gosto muito de almoçar salada de grão e atum - as saladas para mim têm de ter ou quinoa ou feijão, não gosto de saladas de base verde. E preciso de muitos legumes frescos e frutos secos."

A melhor receita para fazer em 5 minutos ou menos? "Mousse de abacate. Um abacate maduro, uma banana super madura, uma colher de cacau, um pouco de canela, leite vegetal – coco ou arroz e triturar tudo. Mousse de abacate como snack ou lanche, é muito rico nutricionalmente (hidratos e gordura boa) e mantém-te saciado imenso tempo. Não conto calorias; conto nutrientes e cores."

Melhor receita para dar as boas vindas à Primavera / Verão? "Batidos, não só verdes mas também com fruta que esteja a estragar no frigorífico. Um bom batido? Gosto muito de batido de aveia e banana – duas colheres de sopa de aveia, uma banana, canela e um leite vegetal. Com topping de canela, é muito bom."

Uma tendência que a deixou feliz? "Estarmos a voltar-nos para o nacional. Para os produtores nacionais, para a consciencialização do biológico, de trazer as raízes antigas para a mesa."
 
Uma tendência vazia a que não aderiste? "Água com limão, de manhã. Percebo os benefícios mas temos de ouvir o nosso corpo, e água com limão de manhã fazia-me mal, sentia o meu estômago muito a arder, ficava muito mal disposta. Durante muito tempo fiz porque todas as pessoas saudáveis fazem."

O que nunca falta na tua despensa? "Limão, canela, muitas especiarias - adoro pimentas, açafrão, caril, paprika... - e chá."

Último ingrediente que descobriste e te deixou muito feliz? "Nos últimos anos... abacate. É super versátil."

Podes não ter tempo para mais nada mas não abdicas de... "Treinar. Treinar é a minha terapia. Já passou o plano físico - é o meu antidepressivo."

Inspirações? "A minha família. A minha mãe é uma super mulher, uma grande, grande, grande inspiração. A nível digital gosto da Vânia do Made by Choices - ela dá-me vontade de cozinhar, algo que eu não gosto nada de fazer para além das sobremesas e dos pequenos-almoços; da Inês Nunes Pimentel - teve um papel muito importante nesta minha recuperação em 2016, foi uma parte fulcral de eu me conseguir equilibrar; da Rute Caldeira - faz das melhores meditações do mundo; da Helena Magalhães - tem uma voz muito ativa nisto que é ter um blog e fazer mais para além disso."

O futuro da alimentação, em bom. "Gostava que os produtores nacionais fossem mais apoiados. As pessoas já têm consciência de que é bom consumir nacional mas todos temos noção de que o consumo nacional é mais caro. É preciso voltar às raízes, desmistificar a comida – os miúdos não conhecem a comida, não sabem de onde vem. É preciso "desplastificar" a alimentação. É preciso que mais portugueses tenham acesso a comida de qualidade."

Planos para o futuro? "O meu maior objetivo com o Lolly Taste é que ele chegue a cada vez mais pessoas que precisem de o ler. Recebo muitas mensagens de pessoas que desabafam comigo e que se sentem muito perdidas, que adoravam conseguir alcançar esta paz e conseguir equilibrar-se. Hoje em dia já há muita gente a falar do que eu falo, e ultimamente acho que as pessoas perceberam que isto é marketizável e que toda a gente, de repente, é uma inspiração. Quero mostrar às pessoas que é possível viver sem fazer dieta, é possível viver sem ter medo de comer. Toda a gente consegue isto."

A pergunta que nunca te fazem e gostavas que te fizessem? "Gostava muito que me perguntassem sobre a minha relação com o Alzheimer. Tive uma avó com a doença e assisti à degradação mental e é um dos meus maiores medos. Perderes todas as tuas memórias é provavelmente das coisas mais cruéis que te pode acontecer."



A Vânia escreve no Lolly Taste e partilha o seu dia a dia no Instagram.

SUN&VEGS

AGORA, EM BOM

Almoçar pode ser apenas mais uma pausa obrigatória a meio do dia ou um momento de partilha, descoberta, prazer. É por isso que convidamos quem nunca para de correr para se sentar, respirar e nos contar tudo - sobre si e sobre a comida que faz bem.

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