Feito à mão. Agora, em bom.

MARCAS À MÃO

Näz

Como é que surgiu a marca? 
Com 16 anos tinha uma marca que pertencia ao conceito de upcycling (reutilização criativa). Na altura íamos à feira da ladra e transformávamos calças antigas em calções, uma ajuda na época para pagar a licenciatura em design de moda. Enquanto consumidora não conseguia encontrar roupa que não fosse feita através de exploração social a um preço acessível. Agarrei-me ao que já tinha e comecei a criar um conceito: 

"Fazer roupa que seja socialmente justa."

Atualmente utilizamos desperdícios do setor têxtil. Não estamos a falar de rolos com apenas 20 metros, estamos a falar de rolos com 150 a 300 metros. Quando se fala em desperdício as pessoas assumem que são quantidades pequenas. Não é verdade, há muito desperdício da indústria. Por vezes o tecido vem com defeito ou a cor quando foi para tingimento não ficou exatamente igual ao previsto, nesses casos, já não pode seguir para o cliente e nós aproveitamos. 
 
O que as empresas já não podem vender, nós compramos ao preço de fábrica. Depois comecei a compreender o impacto ambiental que não estava a ter, ou seja, estando a utilizar o que já existia, não produzia nada novo e diminuía imenso a pegada ambiental associada à produção de uma peça nova.

Qual a inspiração para o nome?
Andava à procura de um termo curto com uma boa sonoridade que desse para trabalhar bem a nível de design. O significado partiu de uma pesquisa por palavras que não tem significado noutras línguas e acabei por encontrar “urdo”. Há várias línguas no Médio Oriente que usam essa palavra mas com significados distintos. Näz do urdo significa ter orgulho de ser amado independentemente do que fazemos. Percebi que esse sentimento era o que pretendia transmitir às consumidoras quando utilizassem a minha roupa. 
 

"Orgulho em vestir uma peça bonita, mas também com uma história positiva por trás. A moda é a segunda camada entre nós e o mundo, está constantemente em contacto com a nossa pele."


Muitas pessoas quando adotam um estilo de vida saudável começam pela alimentação, depois vão para a cosmética e só agora começam a pensar na roupa. Estamos a falar de uma indústria que é a segunda mais poderosa do mundo. A seguir ao petróleo, segue-se a moda. Há um documentário chamado “True Cost” que aconselho todos a verem. É um pouco harsh mas fala sobre a produção de tops cropped em algodão na Índia e as consequências do uso de pesticidas nas fábricas que resultou em vários casos de anomalias e doenças físicas em bebés e crianças da região.
 
Quando é que a Näz foi lançada?
Não consigo ter uma data fechada porque a Näz tem sido um projeto gradual. Começámos em mercados de rua e seguimos com a venda dos nossos produtos em lojas parceiras. A primeira localizada em Antuérpia. Cheguei a ir lá algumas vezes e foi gratificante ver as pessoas entrar, mexer, experimentar e levar mais do que uma peça. Clientes que já tinham comprado Näze que estavam à espera de novidades. Foi aí que percebi que era um assunto sério e a dedicar-me a 100%.
 
Como foi o processo de seleção dos fornecedores?
No início foi difícil. Acho que “desbravámos” algum terreno para as marcas que agora começam a surgir. Vimos reticência em muitas empresas porque não era comum chegar a uma fábrica e pedir desperdícios para compra. Foi um paradigma que foi mudando gradualmente e atualmente as empresas já são bem mais recetivas. Atualmente já temos uma rede de contactos bastante alargada.
 
E em termos de distribuição?
Inicialmente ia para uma cidade com roupa numa mala e andava a bater de porta em porta, a falar diretamente com os proprietários de espaços e a propor parcerias. As primeiras lojas que conseguimos foram assim. Entretanto, começámos a fazê-lo com apoio do Cenit (Centro de Inteligência Têxtil), a nível de feiras internacionais. Fizemos o Ethical Fashion Show, em Berlim, onde arranjámos novos retailers. A partir daí tem sido muito online. Temos tido muitas lojas a virem falar connosco recorrendo através das redes sociais. No entanto, tenho sentido falta do contacto direto. Estou a considerar adicionalmente à presença nas feiras, tentar ir mais por showrooms. Estar diretamente em contacto com os buyers, as feiras estão demasiado dispersas neste momento. Já fizemos o nosso primeiro showroom em Antuérpia e ganhámos novas lojas, foi bastante fácil estabelecer contacto.
 
Quais os mercados internacionais que já comercializam os vossos produtos?
Vendemos muito bem na Bélgica, acho que é um público muito fiel. Entre Portugal e Bélgica diria que os dois mercados são muito idênticos em termos de vendas. Holanda, Áustria, Alemanha e Suíça são os restantes países onde estamos presentes. Se tudo correr bem no próximo verão estaremos no Japão.
 
Em quantas lojas a marca está representada?
Depende, muda sempre de estação para estação, mas estamos em mais de 17. 
 
Quem são as pessoas por trás da marca?
Indiretamente estamos a trabalhar com centenas de pessoas desde a costura aos tecidos. Diretamente ainda somos só duas. 
 
Como funciona o vosso processo criativo? Quais as inspirações para criarem as coleções?
Eu não faço desenhos, nem sou muito conceptual. Quem olhar para a marca vê que não é muito conceptual, é uma marca assumidamente comercial e que o quer ser. Sem problemas em assumir. Inspiro-me sempre nos nossos consumidores. Neste caso ainda são mulheres, mas para o ano serão homens também. Nas mulheres independentes que temos à nossa volta e em nós mesmas. Estou muito bem numa reunião e de repente passado um segundo tenho de estar a carregar rolos de 30kg para o carro. 
 
Num estilo de vida moderno, contemporâneo, com peças que se adaptam facilmente a diferentes estilos, a diferentes situações do dia a dia. A nossa vida não pára e a nossa roupa tem que acompanhar o ritmo; daí a Näz ter peças largas, over size, não termos mangas cavas justas, é sempre nesse sentido de criar roupa não como um impedimento para o nosso dia a dia, mas como um aliado. 
 
As coleções da Näz são sempre muito semelhantes. Para já não nos inspiramos em nada concreto, vamos sempre desenvolver as coleções com base nas anteriores e modificando algumas coisas, seguindo sempre as tendências. 
 
Uma história pouco contada sobre a marca.
Tenho duas: uma boa e uma má. A boa foi a marca ter começado enquanto estudava então toda a roupa era confecionada por mim na universidade à noite. A má foi termos pedido um crowdfunding para lançar a marca e criar a empresa. Pedimos porque fomos enganadas por um contabilista e perdemos todos os apoios que iríamos ter para comprar as máquinas de costura. Teve que ser o meu avô a emprestar-nos dinheiro para começar. 

Uma história que recordes com muito carinho.
A loja em Antuérpia. Estar lá sentada e ver as pessoas realmente a experimentar a roupa, a gostar das peças, a sentirem-se confortáveis, a virem ter comigo e dizerem “Adoro a vossa marca!”, foi muito gratificante.
 
A pergunta que mais te fazem?
O que significa Näz.
 
A pergunta que nunca, ou raramente te fazem, e gostarias que te fizessem?
O motivo da marca ser sustentável, as pessoas assumem que a marca é ecológica.
 
Quais as referências conceptuais para a marca? 
Uma inspiração a nível de design é a Maison Margiela, a marca é extremamente conceptual e sempre soube que o importante era o design e não o designer. Acho que essa é a minha maior referência, fazer peças de roupa que falam por si e que não precisam que eu apareça para serem vendidas. 
 
Quem é que gostavas que usasse um dia um produto teu?
 

"A pessoa comum. A marca é feita para isso. Não é para uma pessoa específica é para todas."


As melhores surpresas que a marca te deu?
O crescimento que tem tido e o prémio da Yves Rocher.
 
Planos a curto/médio prazo para a Näz?
A curto (próximo verão) será lançar a primeira coleção de homem e algumas peças de criança para testar o mercado. Vamos ver como funciona porque existem muitos players no segmento bebé, não existe muita oferta para criança, então vamos testar. 
 
Desejos para 2019?
Que gostem da coleção de verão. Já está toda feita, toda vendida às lojas parceiras, e é espetacular. Acho que toda a gente vai adorá-la. Será a nossa primeira coleção a sério, porque até agora não tínhamos os timings certos porque temos de ter tudo pronto com um ano de antecedência. Esta coleção de inverno está muito em linha com a anterior, apenas melhorámos a qualidade de todas as peças e focámo-nos muito na de verão. Achamos mesmo que será a coleção que nos vai lançar a sério no mercado.

Desejos para o futuro do sector e do nosso país?
Que se torne mais sustentável. Eu acredito que as marcas pequenas não mudam muito, não temos capital suficiente para mudar, mas estamos a falar de indústrias de biliões, triliões de euros. 
 

"No entanto acredito que somos nós, marcas pequenas, que estamos a mudar a consciência do consumidor e a educá-lo."


E o que é que isso significa? Significa que se nós conseguimos, as outras marcas também conseguem e o consumidor começa a pensar nisso e começa a exigir o mesmo do mercado. Se formos a ver, as coleções mais ecológicas de todas as marcas (Mango, Zara, H&M) estão a aumentar. O conceito de fast fashion em algumas coisas é muito mais sustentável do que o de slow fashion, a verdade é essa. Nós não nos identificamos tanto com o de slow fashion, queremos mais estar no sentido da rentabilização de produção, é por aí que trabalhamos. 
 
Achas que a chave é consumir menos?
Não. A indústria está tão enraizada, principalmente nos países subdesenvolvidos, onde a maioria das pessoas trabalha no sector têxtil. Eu questiono-me se toda a gente deixar de consumir, produz-se menos, logo surge aqui um problema. Acho que a reciclagem vai aparecer como uma solução à matéria prima nova. 
 
Qual a perceção que os consumidores têm do setor? 
Quando criei a marca percebi que as pessoas sabiam mais do que estava à espera. Temos dois perfis de cliente: o cliente que realmente é bastante informado e depois temos o cliente que acha que o tecido entra e sai de uma máquina, que não há pessoas pelo meio do processo. 
 
Sentes que dão a devida importância quando comparado com o setor do calçado, por exemplo?
O calçado tem evoluído na medida em que toda a gente valoriza um sapato feito em Portugal. No entanto, os portugueses, ainda não dão esse mesmo valor a uma peça de roupa produzida no nosso país. Lá fora, uma peça de roupa feita em Portugal é associada a elevada qualidade. Por cá, a associação não é tão direta.

SUN&VEGS

AGORA, EM BOM

Este site usa cookies para recolher informações que ajudarão a optimizar a tua visita. Consulta as informações sobre o uso de cookies na nossa Política de cookies. Ao continuar a usar o nosso site, aceitarás a nossa política de cookies. ACEITO